Relação Força de mmii e Velocidade no Futebol

Artigo publicado na evista ENAF Science, Vol 3, Nº 1, em Maio de 2008, no 44º ENAF, Poços de Caldas – MG  

CORRELAÇÃO ENTRE FORÇA DE MEMBROS INFERIORES E VELOCIDADE EM JOGADORES DE FUTEBOL PROFISSIONAL

Autores: Profs. Francisco Adolfo Ferreira; Wagner Alves e Weverson Misquita

 

Resumo

O objetivo deste estudo é analisar a correlação entre as variáveis potência de membros inferiores, avaliado em teste de impulso vertical, utilizando o método de Counter Movement Jump, e velocidade de corrida de 10m. Foram utilizados 10 jogadores de futebol profissional da primeira divisão do campeonato brasileiro, que foram submetidos aos testes de salto e de velocidade de corrida em campo. A velocidade média do grupo avaliado foi de 5,94 m/s para o percurso correspondente a 10m, e a média dos saltos atingida chegou a 41,69 cm. O resultado estatístico mostrou haver uma baixa correlação entre as duas variáveis, o que sugere que existem outros fatores que interfiram significativamente na velocidade de corrida.

Palavras chave: Teste de impulsão vertical; velocidade de corrida.

 

Abstract

The objective of this study is to analyze the relation between the variable power of inferior members, evaluated in test of vertical impulse, using the method of Counter Movement Jump, and speed of race of 10m. It has been used 10 professional soccer players of the first division of the Brazilian championship, who had been submitted to the tests jumping and speed racing in field. The average speed of the evaluated group was 5,94 m/s for the corresponding passage 10m, and the average of the jumps reached arrived the 41,69 cm. The statistical result has showed to exist low relation between the two 0 variables, what suggests that the one other factors that intervene significantly with the race speed.

keywords: Test of vertical impulse; race speed.

 

SUMÁRIO

  1. Introdução ………………………………………………………………… 03
  2. Metodologia ………………………………………………………………. 04
  3. Resultados ………………………………………………………………… 05
  4. Discussão …………………………………………………………………. 06
  5. Conclusão …………………………………………………………………. 07
  6. Referências ……………………………………………………………….. 08

 

1- Introdução

A velocidade é uma característica neuromuscular, que está presente em todas as situações nos vários esportes. Popularmente, diz-se que a velocidade é uma capacidade de realizar um movimento no menor espaço de tempo. Na física, a velocidade se expressa dividindo a distancia pelo tempo, isto é, a distância percorrida na unidade de tempo. A velocidade é bastante especifica e também relativa, certas pessoas podem executar um movimento bem rápido e outro relativamente lento (Barbanti, 1997).

Garganta (1999), afirma que a velocidade motora, entendida como a capacidade humana que condiciona a realização dos movimentos desportivos, constitui um fator do rendimento ao qual se atribui cada vez maior importância.

Treinadores e investigadores têm voltado as suas preocupações, não só para as formas de manifestações que a caracterizam, mas também para o modo de transformá-la em indutores de eficiência das ações desportivas. De fato, à luz das exigências do desporto atual, não apenas a chegar ao local desejado, ou a realizar uma ação, mas também a pensar, a encontrar soluções, a perceber o erro, a decodificar os sinais do envolvimento. Em síntese, mais rápido e melhor, a perceber, a pensar e a agir.

Segundo Dintiman et al. (1999), através dos anos, técnicos e atletas reconheceram a importância da velocidade e da rapidez.

Nos dias de hoje a velocidade tem um papel importante no desenvolvimento físico dos atletas, pois ela aparece na maioria dos desportos.

No basquetebol, no handebol e no futebol, os estímulos visuais são prevalecentes de situações como: análise de trajetórias da bola, percepção das movimentações dos colegas e adversários (Garganta, 1999).

De fato, a expressão da velocidade decorre, não apenas da brevidade de reação aos estímulos ou da velocidade gestual, mas também do tempo necessário à identificação, ao processamento rápido da informação e ao reconhecimento e avaliação das situações complexas do jogo.

Garganta (1999) cita ainda que, a velocidade motora, longe de se restringir à acepção física do termo, situando-a como uma grandeza física, dada pela reação entre o espaço percorrido por um objeto e o tempo necessário para percorrê-lo, impõe-se, sobretudo, como uma grandeza, tático-técnica, perceptiva e informacional, que se substancia no que se pode designar por velocidade de realização, quando nos referimos à disposição individual do jogador, ou por velocidade de jogo, quando nos reportamos ao desempenho das tarefas de equipe, enquanto unidade coletiva, nas diferentes fases que o jogo atravessa. A velocidade de realização resulta, assim, da conjugação de diferentes e complementares aspectos fisiológicos (Bompa, 2002; Zakhatov & Gomes, 2003), biomecânicos (Bompa, 2002) e perceptivos (Weineck, 1991).

Quando se trata de estudar as capacidades motoras nas atividades físicas e nos esportes, a força é considerada um parâmetro de elevada importância para um desempenho ótimo. Partindo desse pressuposto, as investigações desenvolvidas com salto vertical são direcionadas para avaliar essa capacidade e tem sido largamente utilizada por diversos pesquisadores.

O emprego da força no futebol tem se mostrado importante e algumas pesquisas têm sido feitas. Reilly & Thomas (1976), Whithers et al. (1982), Barbanti (1996), mostram que os saltos realizados pelos jogadores, acontecem com uma certa freqüência, principalmente entre os zagueiros e os atacantes. Os “sprints” também são bastante utilizados, principalmente pelos atacantes. Connet et al (1991), realizaram um trabalho especifico de força com 15 jogadores franceses. Os exercícios de saltos alternavam-se com flexões e extensões. Após 10 semanas de treinamento os resultados encontrados foram os seguintes: a) aumento do tempo de vôo de bola; b) aumento da capacidade de salto; c) diminuição das assimetrias entre os membros inferiores, melhorando o acerto de chutes ao gol; d) aumento na velocidade.

Uma questão aqui investigada: Elevados níveis de força de membros inferiores torna o jogador de futebol mais veloz?

Essa pesquisa foi realizada com o intuito de correlacionar a força de membros inferiores com a velocidade de corrida em jogadores de futebol profissional.

 

2- Metodologia

Foram fornecidos dados dos testes de impulso vertical e velocidade em 10 jogadores, com idade entre 20 e 29 anos, de um clube profissional de futebol da primeira divisão, do campeonato brasileiro.

As medições do teste de velocidade foram realizadas em um campo de jogo e os atletas realizaram a corrida utilizando calçados específicos para a modalidade (chuteiras). O teste aplicado foi o de medição de tempo aos 10m (saída estacionária), utilizando fotocéluas sem espelhos de cronometragem eletrônica. Os atletas eram instruídos a realizar o teste na maior velocidade possível e manter o esforço máximo em linha reta até uma distância superior a 10m.

O teste de força de membros inferiores foi medido através de teste de salto vertical, Counter Movement Jump.

O procedimento do teste consiste em: O atleta, a partir de uma posição em pé, se movimenta para baixo flexionando as articulações do quadril, joelho e tornozelo. Na primeira fase a contração é excêntrica e na segunda é concêntrica, com um movimento continuo em que as devidas articulações são estendidas.

Os dados foram confrontados para constatar se os indivíduos que apresentaram maiores índices de força nos membros inferiores são mais velozes.

 

. Análise estatística

 

Para a descrição da amostra e apresentação dos resultados, foi utilizada estatística descritiva (média e desvio padrão). O teste de correlação de Pearson foi utilizado para a análise das associações entre potência dos membros inferiores no salto vertical e a velocidade média da corrida com nível de significância de r = 0,51.

 

3- Resultados

Os resultados obtidos pelos atletas no teste de impulsão vertical e no teste de velocidade máxima, estão representados nas tabelas 1 e 2 respectivamente. A velocidade média de deslocamento foi obtida através do registro do tempo no percurso. O impulso vertical médio do salto foi obtido através do registro de tempo aéreo após o salto.

Atleta Salto – cm   Atleta Velocidade – m/s
Lateral Direito1 50,8   Lateral Direito1 6,09
Goleiro 1 43,5   Goleiro 1 5,58
Goleiro 3 42,8   Goleiro 3 6,01
Meio Campista 2 42,7   Meio Campista 2 6,2
Meio Campista 3 42,4   Meio Campista 3 5,95
Atacante 42   Atacante 6,28
Meio Campista 5 41,7   Meio Campista 5 5,98
Meio Campista 4 41,7   Meio Campista 4 6,02
Goleiro 2 35,5   Goleiro 2 5,56
Lateral Direito 2 33,8   Lateral Direito 2 5,74
Média 41,69   Média 5,94
Desv.Padrão 3,307   Desv.Padrão 0,238

(Tabela 1)                                                                                                                    (Tabela 2)

 

A figura 1 representa a correlação dos valores referentes ao impulso vertical e a velocidade no intervalo de 10m respectivamente.

 

 

(Fig. 1)

 

4- Discussão

Analisar as funções e reações musculares é de grande importância na ciência do movimento, principalmente na área das Ciências do Esporte a qual procura uma adequação nos programas de treinamento aos indivíduos. Estas análises têm sido feitas através de testes e retestes, os quais nos fornecem subsídios para a progressão dos esforços.

Reilly & Thomas (1976), Whithers et al. (1982), Barbanti (1997), citam resultados de suas pesquisas mostrando que existe uma estreita relação do rendimento da corrida com várias características da força, especialmente com a força de sprint, força de salto horizontal e força de salto vertical.

Moreira (2002) observou que existe uma significativa correlação entre força e corrida, entre a manifestação de força e aceleração. Nesse sentido Moreira, Souza e Oliveira (2003) investigaram a correlação entre velocidade, força rápida e explosiva. O estudo foi feito em atletas de basquetebol do sexo masculino da divisão principal (A1) do Campeonato Brasileiro na temporada 1997/98, analisando três momentos distintos da temporada (final do bloco de cargas concentrada, final do primeiro turno e final do segundo turno). Esse estudo apontou uma importante contribuição da força rápida e explosiva na velocidade de deslocamento durante os distintos momentos da temporada, porém, com diferença de correlação ao longo do macrociclo.

Janeira (1999) em outro estudo verificou uma forte associação entre os deslocamentos feitos em alta intensidade e os maiores rendimentos dos atletas evidenciando assim, a necessidade do desenvolvimento da velocidade motora.

Diante das informações de outras pesquisas semelhantes de variados autores, esta pesquisa mostra que 60% dos atletas apresentaram um resultado semelhante. Eles têm grande impulsão vertical e grande velocidade, portanto, corroborando a idéia de que, quanto maior a força dos membros inferiores, maior a velocidade atingida pelo individuo. Os 40% restantes, apresentaram mais força e menos velocidade ou menos força e mais velocidade, confrontando os resultados com um percentual acima do esperado.

A baixa correlação (r = 0,51) encontrada no presente estudo talvez possa ser justificada pela especificidade da capacidade velocidade. O movimento de corrida reflete padrões nos quais as ações musculares concêntricas são imediatamente precedidas pelas fases excêntricas. Essas ações, segundo Komi (2006), possibilitam um aumento no rendimento em função do ciclo de alongamento – encurtamento muscular, através do processo de reserva (fase excêntrica) e reutilização (fase concêntrica) de energia elástica. Assim, Ingen et al. (1997) afirmam que a energia mecânica despendida durante a corrida não é proveniente somente da contração muscular.

Essa pesquisa concorda, com os autores mencionados, em dizer que o trabalho de força de membros inferiores pode melhorar a velocidade em uma corrida, mas não havendo estreita correlação entre as variáveis apresentadas por esta, pois o percentual de atletas que apresentaram mais elevados tanto de força como de velocidade foi de 60%.

 

5- Conclusão

Com os resultados desta pesquisa, pode-se concluir que o grupo analisado apresentou uma baixa correlação entre os valores alcançados na velocidade de corrida e na altura do salto. Ressalva-se, entretanto, que os resultados em provas de velocidade dependem de uma variedade de fatores que poderiam ser a coordenação inter e intra-muscular, peso corporal, número de fibras de contração rápida dentre outros. Sugere-se que mais estudos sejam realizados para fins de verificação da existência ou não desta correlação, força x velocidade.

 

6- Referências

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