QUANDO ÉRAMOS REIS…

23 de Julho de 2017

QUANDO ÉRAMOS REIS…

Se há um texto sobre futebol que eu realmente gostaria de ter escrito, trata-se do capítulo 14 (“Leve-me para a Lua”) do livro “A PIRÂMIDE INVERTIDA – A história da tática no futebol”, de Jonathan Wilson (1).

É um texto que me remete a algumas das minhas mais remotas memórias afetivas. Eu tinha apenas seis anos de idade e foi naquela Copa de 70 que comecei a perceber a magia e encanto do futebol.

Ouso dizer que, em termos de futebol, foi realmente um tempo em que ÉRAMOS REIS!

Por aquela época, eu já respirava o ambiente do futebol através de meus tios famosos: Paulo Benigno, pioneiro da preparação física no futebol de Minas Gerais e que fazia história naquele fabuloso Cruzeiro de Tostão, Dirceu Lopes & Cia, tendo sido, inclusive, sondado pelo então técnico, João Saldanha, para ser o preparador físico da seleção brasileira no México… mas… como o “João Sem Medo” caiu alguns meses antes da Copa, este sonho acabou não se concretizando, muito embora, o Cruzeiro, através de seu lendário presidente, Felício Brandi, tenha dado de presente ao meu tio Paulo e ao técnico Orlando Fantoni, uma viagem ao México para assistirem in loco àquela mítica Copa do Mundo de 1970.

Já o outro tio, o Duque (que faleceu nesta semana… quis Deus que fosse exatamente num domingo, 16/07/2017, dia de rodada do Brasileirão, recebendo assim homenagens em vários estádios país afora), vinha numa trajetória ascendente de grandes trabalhos em equipes modestas como o Bonsucesso e Olaria, por exemplo, encarando os grandes do Rio. Já no Náutico, fez trabalhos excepcionais, levando o time do Recife a uma final e uma semifinal da Taça Brasil, o Campeonato Brasileiro da época, peitando poderosos como Santos – venceu o Santos de Pelé por 5×3, na Vila Belmiro!… uma façanha! –  o Cruzeiro de Tostão e o Palmeiras de Ademir da Guia. Seu reconhecimento como um dos principais treinadores do país naquela época, culminou com os excelentes trabalhos realizados posteriormente por ele no Corinthians (por duas vezes: 72, semifinalista e 76, finalista do Brasileiro), Fluminense (73, Campeão Carioca sobre o Flamengo que tinha um time muito superior) e nos três clubes do Recife (onde ficou conhecido como o “Rei do Norte”, por ter sido hexa-campeão)… Faço então, aqui este registro em sua homenagem.

Bem, assisti à Copa do México ao lado de meu pai, assim como, também com ele e meu outro tio (Alceu), víamos no Mineirão alguns clássicos inesquecíveis entre Cruzeiro, Atlético, Santos, Palmeiras, Botafogo… O futebol era mágico! Era especial!

Naquela Copa, ao som de “Pra frente Brasil” e, num ufanismo extremo – eu com seis anos de idade não tinha a mínima noção do que significava ou de que vivíamos uma ditadura militar – Pelé foi simplesmente um “Rei”!, se impondo magistral e incontestavelmente aos seus súditos. O mundo estava literalmente aos/em seus pés! O time do Brasil, do meio de campo para frente era puro terror para seus adversários!

Quem poderia parar aquelas “Feras do Saldanha”, depois tão bem conduzidas por Zagallo (um visionário que implantou naquele time a ideia de todos recuarem quando perdida a posse de bola, um protótipo daquilo que hoje chamamos “compactação”), que assumiu meses antes da Copa? Todos os seis jogos (Romênia, Inglaterra, Tchecoslováquia, Peru, Uruguai e Itália), os belos gols, os lances antológicos de Pelé – Seu duelo particular contra Mazurkiewicz (melhor goleiro do mundo na época), como o incrível “corta-luz” (na minha opinião, o mais belo lance da história do futebol) e o seu potente chute de “sem-pulo” com uma espetacular defesa acrobática do arqueiro, se tornaram lendários, assim como também a sua tentativa de gol do meio de campo contra a Tchecoslováquia, a cabeçada fulminante contra o goleiro britânico, Gordon Banks, que realizou ali a famosa “defesa do século” e as assistências/roladas “com açúcar” para Jairzinho e Carlos Alberto… – Tivemos também os passes milimétricos de Tostão & Gérson, as arrancadas velozes do “Furacão” Jairzinho… e, claro, o resultado final com seis vitórias em seis jogos, para provar que, realmente, ninguém poderia mesmo parar a seleção canarinho!

      

  

  

O imponente Estádio Azteca sempre ensolarado… Um clima glamoroso que lembrava uma propaganda de Martini… A primeira Copa com transmissão ao vivo – via satélite – para a quase totalidade do planeta e também a primeira transmissão de TV em cores para o Brasil… Um narrador espetacular (José de Almeida: “que bola-bola!!!” “olha lá, olha lá, olha lá!!!”)… Craques em profusão… Primeira estratégica de marketing em escala mundial (improvisado, diga-se): Pelé (propositalmente) se agacha para amarrar suas chuteiras Puma exatamente no momento de dar o ponta-pé inicial, a câmera em close nos pés do Rei… Simplesmente genial: Sem uma única palavra ou comercial veiculado em nenhuma mídia, o mundo inteiro fica sabendo: Pelé, o maior jogador de futebol de todos os tempos, calça chuteiras Puma!

Ficou gravado para sempre no imaginário popular a histeria dos torcedores mexicanos invadindo o campo ao apito final, para carregar Pelé em triunfo envergando um tradicional sombrero mexicano e, junto com alguns dos jogadores italianos, a disputarem a tapa uma peça que fosse dos uniformes daqueles jogadores incríveis, verdadeiros ‘deuses do futebol’ que quase foram deixados nus em campo! Foi verdadeiramente épico, mítico, antológico!

Vamos então ao fantástico texto de “Leve-me para a Lua”, com algumas poucas adaptações e correções minhas:

“Do ponto de vista da mitologia, e talvez também de uma perspectiva factual, a Copa do Mundo de 1970 representa o apogeu do futebol. No imaginário popular, aquele foi um festival de futebol de ataque, e a seleção brasileira que venceu o torneio – Pelé, Tostão, Gérson, Rivelino etc. – é considerada um paradigma insuperável, o maior time que o mundo conheceu, e provavelmente jamais conhecerá. No entanto, existe também a noção de que o estilo de jogo daquele esquadrão não seria possível nos dias de hoje, de que sua conquista foi uma conquista do futebol antigo, de antes de o sistema assumir o controle.

Como parte da preparação para o torneio, o time brasileiro passou por um programa de treinamento da Nasa, cujo significado metafórico parece não ter sido ignorado por ninguém. O Jornal do Brasil, normalmente austero, fez uma observação em 22 de junho de 1970 que surpreendeu pela ousadia. “A vitória do Brasil com a bola”, escreveu, “compara-se à conquista da Lua pelos americanos.”

A princípio, a comparação parece absurda, mas há algo de verídico nela. Para começar, existe o uso de termos abstratos: a “vitória com a bola” e “a conquista da Lua”. Os americanos venceram os soviéticos na corrida espacial e o Brasil venceu a Itália na final da Copa do Mundo, mas nenhum dos adversários é mencionado. Ambas as conquistas – que aconteceram num intervalo de menos de um ano – foram consideradas façanhas grandiosas, vitórias obtidas não contra rivais palpáveis, mas contra elementos externos, como se jogar futebol com tal nível de maestria fosse, de algum modo, um triunfo para toda a humanidade.

É certamente significativo que os momentos mais memoráveis da Copa de 1970 sejam essencialmente não competitivos: o chute de Pelé do meio do campo contra Tchecoslováquia não entrou; e, depois de uma finta de corpo sensacional contra o goleiro uruguaio Ladislao Mazurkiewicz, na semifinal, ele não marcou com o gol aberto. Até mesmo o famoso gol de Carlos Alberto Torres, na final, aconteceu quando restavam apenas quatro minutos de jogo e o destino da Copa já estava decidido. Aquilo era o futebol-arte num sentido bastante literal: não se celebram os eventos determinantes para o resultado, mas os lances que transcenderam o contexto imediato dos jogos em que aconteceram – apesar disso, caso o Brasil não tivesse vencido o torneio, esses momentos talvez não fossem lembrados com afeição, mas como extravagâncias contraproducentes.

Se a chegada à Lua foi a principal façanha tecnológica do século XX e se o sucesso do Brasil na Copa do Mundo de 1970 foi a principal façanha esportiva do período, são questões abertas ao debate. Mas o certo é que nenhum outro evento nessas esferas teve efeito tão imediato e uma importância simbólica tão universal. A razão para isso é simples: a televisão. Para uma audiência composta de milhões de pessoas em todo o mundo, o pequeno passo de Neil Armstrong e o estrondoso chute de Carlos Alberto instantaneamente se tornaram ícones, destinados, desde o momento em que aconteceram, a ser reproduzidos de múltiplas formas. Esses foram os dois primeiros grandes eventos globais da era telecultural. Para selar a conexão simbólica, o segundo pouso na Lua aconteceu no mesmo dia em que Pelé converteu um pênalti contra o Vasco da Gama e alcançou os mil gols.

O fato de o Brasil jogar com camisas de um amarelo vibrante e calções azul-cobalto colaborou: tratava-se do uniforme perfeito para a nova era da televisão em cores. Sob o calor abrasador do sol mexicano, aquele parecia ser o futuro: luminoso e brilhante. O Brasil passou incólume (sem tomar gols) apenas um jogo do torneio, mas isso não fez diferença. A falibilidade fazia parte de seu charme: uma inocência que lhe dava um apelo universal – exceto, talvez na Argentina. “Aqueles minutos finais”, escreveu Hugh McIlvanney em sua crônica sobre a final, “contiveram a essência de seu futebol, sua beleza e magia, um deleite quase imprudente. Outros times nos impressionam e nos fazem respeita-los. Os brasileiros em seu auge, nos provocaram um prazer tão natural e profundo que era como estar passando por uma experiência física […]. As qualidades que fazem do futebol o esporte coletivo mais gracioso, dinâmico e emocionante iam sendo exibidas diante de nós. Os brasileiros tem orgulho de suas habilidades únicas, mas não é difícil acreditar que estavam ansiosos para declarar algo sobre o jogo e também sobre si próprios. Você não pode ser o melhor do mundo em um jogo sem amá-lo, e todos nós que nos sentamos, corados de emoção, nas arquibancadas do Azteca, sentimos estar assistindo a algum tipo de homenagem.” (NOTA MINHA: Exatamente assim! “Uma HOMENAGEM ao futebol!”).

O pouso na Lua foi o clímax de um projeto em que os Estados Unidos empregaram seus recursos científicos, tecnológicos, financeiros e emocionais. Depois que Kennedy admitiu o início da corrida espacial, em 1962, conquistar a Lua passou a ser o grande objetivo do país. Em 1962, o Brasil ganhou sua segunda Copa do Mundo e dirigiu seus recursos para ganhar a terceira. Em 1970, com o governo militar envolvido com o futebol, os jogadores passaram por programas de preparação de sofisticação inimaginável até então. “Nós sabíamos que precisávamos fazer alguma coisa para melhorar nossas condições físicas”, disse Gérson, observando que essa era a área em que as nações europeias mais tinham avançado. “Em 1966, nós estávamos em boa forma física, mas não tanto quanto eles.” Cada jogador brasileiro foi para o México com pares de chuteiras feitas sob medida e, quinze dias antes da viagem, todos passaram a viver no horário mexicano, com um rigoroso regime de dieta e repouso. Até os uniformes foram redesenhados para não ficarem mais pesados por causa do suor. O triunfo do Brasil foi o triunfo da imaginação e da espontaneidade, mas teve suporte da ciência e do planejamento – e das circunstancias econômicas.

O longo boom econômico que durou do final da Guerra da Coreia, em 1953, até a crise do petróleo de 1973 – que efetivamente financiou o programa espacial dos Estados Unidos – criou um mercado maior para as matérias-primas brasileiras, levando ao aumento do emprego e do salário durante os anos 1950. Isso provocou uma elevação no consumo da classe trabalhadora e a criação de uma classe média urbana, mas a distância entre a cidade e o campo ficou maior, conduzindo à migração e ao crescimento das favelas. Falando de forma direta, as condições eram perfeitas para o futebol. Como David Goldblatt observa em The Ball is Round, “com pouca riqueza, a infraestrutura do futebol não pode ser mantida. Com riqueza demais, a linha de produção social de malandros e pibes não pode ser mantida”.

Um time brasileiro envelhecido foi rapidamente eliminado na Copa do Mundo de 1966, na Inglaterra – num desempenho em nada favorecido pela frouxa arbitragem do torneio, que permitiu que Pelé fosse literalmente chutado para fora dos jogos. Extremamente frustrado, ele deixou de jogar pela seleção, mas retornou dois anos depois. “Eu achei a violência e a falta de espírito esportivo tão desanimadoras quanto a arbitragem que permitiu aquilo por tanto tempo”, Pelé explicou em sua autobiografia. No entanto, mesmo no Brasil, o futebol era cada vez mais violento, acompanhando a tendência de uma sociedade em que grupos de guerrilha costumavam atacar o regime militar e sofriam represálias selvagens.

Quando o general Emílio Médici, o mais autoritário dos governantes militares brasileiros, substituiu o marechal Artur da Costa e Silva como presidente, em outubro de 1966, o futebol ganhou um admirador no poder. A guerrilha tinha sido reprimida e o general, torcedor do Flamengo, rapidamente percebeu que o futebol poderia lhe proporcionar a legitimidade popular que desejava. Essa foi uma boa notícia para o futebol brasileiro de uma forma geral, pelo fato de garantir um significativo investimento para a Copa de 1970. Mas era uma má notícia para o técnico da seleção nacional, João Saldanha, que fora membro do Partido Comunista na juventude e, com sua habitual sinceridade, não escondia sua oposição ideológica ao regime.

Saldanha jogou no Botafogo e se tornou jornalista após o encerramento da carreira. Ele ganhou o apelido de “João Sem Medo” pelo estilo franco e, depois de fazer críticas regulares a seu ex-clube, foi escolhido para ser o técnico em 1957.

Saldanha levou o Botafogo ao título carioca e, apesar de o pouco sucesso posterior tê-lo levado de volta ao jornalismo, foi chamado para dirigir a seleção brasileira em 1969. De acordo com Pelé, ele era “inteligente, de língua afiada e trouxe uma nova mentalidade para o cargo de técnico da seleção”. A recusa em fazer diplomacia, que o tornou tão popular como jornalista, foi o que provocou sua queda. Ma sua demissão foi precipitada por uma questão tática.

O time de Saldanha passou com facilidade pelo torneio qualificatório para a Copa do Mundo, totalizando 23 gols em seis vitórias nos seis jogos, contra Colômbia, Venezuela e Paraguai, em 1969. Naqueles dias, ele dizia orgulhosamente: “O que eu quero são gols”. Mas, numa viagem para observações na Europa, em outubro, Saldanha ficou preocupado com o futebol defensivo, muscular, o “jogo brutal e os árbitros tolerantes” que testemunhou. “A Copa”, ele anunciou, após o sorteio agrupar Brasil, Inglaterra, Tchecoslováquia e Romênia, “vai virar um briga de rua se não ficarmos atentos, e os times europeus, com os melhores boxeadores e lutadores, vão vencer.”

Embora fosse emocionalmente contrário ao negativismo, Saldanha reconhecia que a crença ingênua no futebol de improvisação havia levado a desempenhos ruins do Brasil nos anos 1930 e se preocupava em não cometer o mesmo erro. Ao voltar da Europa, tentou preparar o Brasil para enfrentar oponentes cada vez mais bem preparados fisicamente, substituindo jogadores para aumentar o peso médio de sua defesa em cerca de dois quilos e altura em cerca de sete centímetros. Mas as mudanças só causaram confusão. “Ele não aceitava críticas e sua relação com os ex-colegas na imprensa piorou”, disse Pelé. “Gostava de beber e passou a se comportar de maneira estranha.”

A gota d’água veio em março de 1970, quando o Brasil enfrentou a Argentina duas vezes, em jogos preparatórios. Ele não escalou Dadá Maravilha, atacante do Atlético Mineiro que tinha admiração de Médici. Isso provavelmente não teria feito diferença se um jornalista não tivesse perguntado a Saldanha se ele sabia que Dadá era um favorito do general. “Eu não escolho o ministério do presidente”, disse Saldanha, “e ele não escala o meu time.” Médici já estava ofendido pela recusa de Saldanha em alterar a programação de treinos para que os jogadores pudessem ir a um banquete no palácio presidencial; assim, a partir daquele momento, o técnico se complicou.

Uma derrota em casa para a Argentina, que não tinha conseguido a classificação para a Copa do Mundo, piorou as situação, especialmente quando o defensor argentino Roberto Perfumo descreveu o time de Saldanha como “a pior seleção brasileira que já enfrentei”. Wilson Piazza e Gérson tinham sido dominados no meio de campo, um problema pelo qual Saldanha responsabilizou Pelé, acusando-o de não obedecer suas ordens de recuar para ajudá-los. O comentário foi visto como sinal de insanidade: criticar Pelé já era bastante ruim, pedir que ele ajudasse na defesa era uma heresia.

O temperamento de Saldanha apenas complicou as coisas. Em 1967, ele tinha dado dois tiros para o alto após um entrevero com Manga, goleiro do Bangu que ele acusara de participar de uma manipulação de resultados. Saldanha reagiu de forma semelhante quando Yustrich, técnico do Flamengo, o chamou de “covarde” numa entrevista no rádio. Ele foi ao hotel em que Yustrich estava hospedado no Rio de Janeiro e exibiu um revólver carregado. Felizmente Yustrich tinha saído.

Mas, em meio aos caos, Saldanha deu um golpe de mestre no segundo jogo contra os argentinos, ao colocar Clodoaldo, de dezenove anos, no lugar de Piazza. A mudança trouxe novo entusiasmo ao meio de campo e Pelé marcou um gol decisivo no fim da partida. No entanto, Saldanha ainda sentia que Pelé não fazia o trabalho defensivo necessário e admitiu publicamente que considerava substituí-lo. Foi demitido de imediato, sob acusações de instabilidade emocional. A já limitada simpatia popular reduziu-se ainda mais quando Saldanha reagiu de forma explosiva, dizendo que Gérson apresentava problemas mentais, Pelé não enxergava bem e Emerson Leão, goleiro reserva, tinha braços curtos.

Após Dino Sani e Otto Glória recusarem o cargo, Mário Zagallo, o ponta-esquerda de 1958 e 62, foi escolhido o novo técnico. Ele fora um protegido de Saldanha no Botafogo, porém, mais importante, era visto como uma opção segura do ponto de vista ideológico. Quando o governo militar designou o capitão Cláudio Coutinho para trabalhar como seu preparador físico – foi ele quem buscou conhecimento na Nasa – e acrescentou o almirante Jerônimo Bastos à delegação, Zagallo não fez objeções. Mas ele não escalou Dadá.

Na verdade, Zagallo só teve de tomar duas decisões importantes. No momento de sua chegada, Pelé disse: “O time estava mais ou menos formado, mas algumas mudanças eram necessárias”. Saldanha tinha baseado suas escolhas nos times do Santos e do Botafogo (NOTA MINHA: Acrescentaria também o Cruzeiro que cedeu Tostão, Piazza e Fontana para a Copa e ainda teve Dirceu Lopes, Natal e Zé Carlos convocados nas eliminatórias) com a mesma lógica de Vittorio Pozzo e Gustáv Sebes: jogadores que já atuam juntos com frequência terão melhor compreensão mútua. Mas Zagallo introduziu no time Roberto Rivelino, do Corinthians, e confirmou a importância de Tostão, do Cruzeiro. Quando críticos sugeriram que eles eram muito parecidos com Gérson e Pelé, Zagallo respondeu: “O time precisa de grandes jogadores, jogadores inteligentes. Vamos seguir assim e ver o que conseguimos”.

E eles atingiram alturas que talvez nunca sejam superadas. “Nosso time foi o melhor”, disse Gérson. “Quem viu, viu. Quem não viu nunca mais verá de novo.” A final, contra a Itália, foi vista como uma batalha pela alma do futebol, entre o futebol-arte dos brasileiros e o futebol de resultados – como os brasileiros o viam – dos italianos. A arte venceu, mas jamais um time voltaria a ter tanto sucesso ao simplesmente mandar seus melhores jogadores ao gramado e dizer a eles que jogassem.

É claro que não foi tão simples assim, embora seja difícil descobrir a medida da influência de Zagallo. Gérson, Pelé e Carlos Alberto formaram um subcomitê de veteranos – os “cobras”, como ficaram conhecidos – e foram eles que sugeriram a escalação a Zagallo após um jogo preparatório contra o Atlético Mineiro terminar em vaias, por causa de uma pouco inspiradora vitória por 3×1 (NOTA MINHA: Na verdade, foi uma derrota por 2×1, no Mineirão, para o time do Atlético, representando uma seleção mineira).  Sobre a defesa de quatro jogadores não havia mais dúvidas, com Piazza usado como quarto zagueiro. Tampouco com relação a Gérson, o elegante criador de jogadas, que atuava mais recuado – como o que os italianos chamam de regista. Ele precisava de proteção, de modo que Clodoaldo, intocável após a atuação no segundo jogo contra a Argentina, operava a seu lado, oferecendo uma presença mais física e defensiva. Clodoaldo talvez seja mais lembrado por sua participação no último gol do Brasil na final, quando driblou três italianos no campo de defesa; esse tipo de jogada, porém, não era sua grande característica.

Mas e depois? Pelé e Tostão poderiam realmente jogar juntos? “Tostão não era um centroavante típico”, disse o historiador Ivan Soter. “Era um ponta de lança como Pelé. Ele recuava e Pelé se tornava o centroavante. Era muito fluido.” O perigo, então, era que não houvesse ninguém na área para aproveitar essa abordagem de jogo interessante, mas isso se resolveu com Jairzinho, um ponta-direita rápido (ele mais do que justificou o apelido de “Furacão”), que tinha o hábito de fazer gols. Seu movimento contra a Inglaterra, vencendo Gordon Banks após a jogada de Tostão e o passe de Pelé, era típico dele. Jairzinho terminou o torneio como o único homem na história a ter marcado em todos os jogos da Copa. Nos treinos, Gérson passava horas praticando passes diagonais para a corrida de Jairzinho, de forma a calibrar seu pé esquerdo e fazer ajustes ao ar rarefeito mexicano. Os avanços de Jairzinho pela direita deixavam espaços atrás dele, mas isso não era um problema, porque Carlos Alberto era um lateral ofensivo, como Nílton Santos. Ele também avançava e a defesa se ajustava.

Restavam ainda duas questões importantes: quem iria jogar na esquerda e como acomodar Rivellino. Ele era mais um ponta de lança e havia dúvidas sobre sua condição física. Everaldo era um lateral muito mais defensivo, o que dava equilíbrio à linha de quatro defensores, mas significava que, se um ponta-esquerda ofensivo – como Edu, do Santos – fosse escalado, surgiria um perigoso espaço naquele lado, o tipo de fraqueza que Alcides Ghiggia explorou na final de 1950. Dois problemas se transformaram em solução, com Rivellino posicionado ligeiramente do lado esquerdo, embora ele se movesse para dentro, oferecendo também algum equilíbrio para os avanços de Jairzinho e, sempre que possível, soltando seu pé esquerdo em chutes poderosos. Era um 4-4-2, um 4-3-3, um 4-2-4 ou até mesmo um 4-5-1? Era tudo isso e nada disso: eram apenas jogadores que se complementavam perfeitamente. Na linguagem moderna, provavelmente a melhor descrição seja um 4-2-3-1, mas essas sutilezas não significavam nada na época.

    BRASIL 1970

Ferruccio Valcareggi, o técnico da Itália, não utilizava ao mesmo tempo seus dois grandes criadores de jogadas, Sandro Mazzola e Gianni Rivera. Ele criou a staffeta – o revezamento -,   em que um deles jogava o primeiro tempo e o outro, o segundo. O contraste não poderia ter sido mais evidente.

De maneira bastante apropriada, o Brasil completou sua vitória na final com um gol de extrema qualidade. Não havia nenhuma intenção de defender a vantagem de 3×1 ou fazer o tempo passar. Ao contrário, eles simplesmente continuaram jogando e produziram um gol que ainda é muitas vezes escolhido como o maior de todos, um maravilhoso presente de despedida de um time maravilhoso em um torneio maravilhoso.

Começou com Clodoaldo e sua sequencia de dribles improváveis no campo de defesa. O imprudente passe de calcanhar que, 49 minutos antes, tinha presenteado o empate à Itália, aparentemente sumiu de sua mente. Ele passou para Jairzinho, que dessa vez aparecia na esquerda. Quando Giacinto Facchetti se aproximou para marcar seu avanço, o ponta desviou para dentro e deixou a bola com Pelé. O Rei esperou e, com a mesma precisão que produziu gols contra a Inglaterra e o Uruguai no torneio, rolou a bola para Carlos Alberto. O lateral e capitão ocupou o espaço deixado por Jairzinho e bateu de primeira, no canto baixo.

Foi exuberante, realmente brilhante, e não foi só o Brasil que reagiu com euforia; mas aquele momento marcava o final da era da inocência no futebol. Essa era tinha acabado muito antes no futebol de clubes, ao menos na Europa – porém, no México, o calor e altitude se combinaram para impossibilitar a adoção da pressão ou qualquer tipo de marcação sistemática. Pela última vez numa competição importante, houve espaço, e o Brasil tinha um time perfeitamente equipado para usá-lo da melhor forma. Transmitido via satélite em cores vibrantes ao redor do mundo, o que parecia o início de um admirável mundo novo era na realidade a última mensagem enviada pelo mundo antigo. E aí talvez se possa traçar o paralelo final com o pouso na Lua: a natureza ilusória do futuro cintilante que ele anunciava. Da mesma forma que não existem colônias humanas no espaço, o futebol também acabou sendo tomado por preocupações mundanas.

Até mesmo o Brasil parece ter admitido que 1970 foi o auge que jamais será repetido. Pode ter lhe custado o emprego, mas a declaração de Saldanha sobre o caminho que o futebol percorria se mostraria fundamentalmente correta – apenas prematura em doze meses…”

E assim terminou a era em que, indiscutivelmente, fomos “Reis”…

Francisco Ferreira

www.ceperf.com.br

  1.  A PIRÂMIDE INVERTIDA, Jonathan Wilson, 2013, Editora Grande Área.
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