Multi-Inter-Transdisciplinaridade no Futebol

Artigo publicado no site da universidade do Futebol em 22/08/2007

http://www.universidadedofutebol.com.br/Artigo/1246/Multidisplinaridade-Interdisciplinaridade-e-transdisciplinaridade-no-futebol

Multidisplinaridade, Interdisciplinaridade e transdisciplinaridade no futebol
 
Reflexões sobre a integração de conhecimentos na prática do futebol
 
Autor: Prof. João Paulo Medina

 

“Sempre ouvi dizer que o futebol é coisa simples, regras fáceis de entender, movimentos naturais etc. etc. Os defensores dessa ideia justificam até que, por causa dessa simplicidade, ele causa tanto encantamento nas pessoas. Sob determinado ângulo pode ser! De minha parte, prefiro incluir o fenômeno futebol, dentro de todas as suas nuances, no mesmo grau de complexidade que nos permite entender e interpretar a natureza humana. Se compreender seus processos fosse tão simples, como afirmam alguns, o ser humano não estaria levando milênios para entender a si mesmo”.
 
Conhecimento no futebol: para quê?
A resposta a esta questão pareceria óbvia, não fosse a insistência do “Establishment” (1) que ainda domina o nosso meio, em defender a ideia que futebol é “uma coisa muito simples”, dando a impressão de que quanto mais conhecimentos trouxermos em torno desse fenômeno esportivo, mais distantes ficamos dos resultados práticos.
Analisemos como exemplo, a polêmica, no meu modo de ver, estéril que se vem travando, ao longo das últimas décadas, a respeito da importância ou não da psicologia no futebol. É bem verdade que às vezes os próprios psicólogos dificultam as coisas, apresentando conceitos rígidos ou fragmentados que pouco ou nada têm a ver com a realidade prática do futebol. De qualquer forma, o fato de estarmos ainda questionando a importância da psicologia para o desenvolvimento do atleta, mostra o nosso estágio atual de não valorização do conhecimento mais elaborado como forma de evolução.
É bem verdade que há conhecimentos e conhecimentos.
Há o conhecimento empírico, popular ou vulgar, que se caracteriza pela forma comum (de senso comum), espontânea e direta que temos de entender o mundo que nos cerca. Trata-se de um conhecimento que, por estar baseado na tradição, em aparências, em experiências causais, superficiais e até ingênuas, não raro nos leva a erros em nossas deduções e prognósticos.
Há, por outro lado, o conhecimento científico, mais elaborado, que busca ir além da visão empírica e que procura conhecer a realidade, através de suas causas e leis. O próprio conhecimento científico vem evoluindo nos últimos séculos, partindo-se de uma visão que via (às vezes, ainda vê) a ciência como um sistema de proposições rigorosamente demonstradas, demonstráveis, imutáveis e objetivas, para um processo contínuo de construção e compreensão da realidade, onde não existe nada pronto e definitivo, buscando-se constantemente explicações e soluções e a permanente reavaliação dos seus resultados.
E há ainda os conhecimentos filosóficos e teológicos que buscam cada qual ao seu modo, explicações que escapam das percepções empíricas e científicas, mas que procuram, via de regra, compreender a vida e, em especial, dar sentido a existência humana.
Infelizmente a visão tecnicista, de grande influência nos meios científico, cultural e pedagógico, embora tenha permitido o progresso das diferentes áreas do saber, rapidamente começa a chegar a seu ponto de saturação.
A visão especialista, enquanto instrumento de observação e pesquisa, e que permitiu tantos bons resultados práticos e, portanto, tanto sucesso alcançou na última metade do século 20, vai nos deixando cada vez mais distantes da melhor compreensão global dos fenômenos. Em outras palavras, não podemos mais continuar utilizando-nos exclusivamente do paradigma do conhecimento especializado, particular e, portanto, fragmentado, para entendermos a realidade que nos cerca. A especialização, entendida de forma isolada e desconectada de suas relações com o mundo, a natureza e o homem, da forma mais ampla possível, já não faz o menor sentido.
No futebol, além da fragmentação advinda de perspectivas tecnicistas e especialistas, de uma forma geral, ainda predomina certa abordagem, que adota alguns princípios científicos de forma estática, absoluta, como se esses princípios fossem verdades eternas e imutáveis, misturados com bastante empirismo (conhecimentos empíricos), que vem dificultando novos saltos de progresso na prática desta modalidade esportiva de grande influência nas sociedades contemporâneas.
Para que o futebol brasileiro avance e continue ocupando um lugar de vanguarda, em termos de resultados, expressão cultural e, particularmente, como forma de entretenimento e espetáculo, propomos mudanças significativas na forma pela qual ele ainda é praticado, gestado, concebido e administrado.
 
 
“Estamos perdendo a noção do todo. A simples soma dos saberes especializados já não nos conduz mais, com facilidade, aos resultados almejados. Não queremos negar a especialização, mas é preciso muito mais do que isso. Precisamos urgentemente de interação, integração, sinergia”.
 
Novas abordagens e conceitos para o futebol
Ampliando um pouco mais a noção sobre o que significa o conhecimento e de como ele pode contribuir para o desenvolvimento humano e, por extensão, do futebol, vamos refletir um pouco sobre as possibilidades de interação, integração e sinergia entre as distintas disciplinas ou áreas de saber.
Se, como já dissemos, podemos considerar quatro tipos básicos de conhecimento (empírico, científico, filosófico e teológico) para interpretarmos a realidade e nela intervir, por outro lado, temos igualmente quatro formas de abordagem dessa realidade, quando analisamos a capacidade que cada disciplina ou área de saber especializada tem para compreender os fenômenos em toda a sua complexidade. São elas: a disciplinaridade, a multidisciplinaridade, a interdisciplinaridade e a transdisciplinaridade, e que representam, na verdade, quatro modos distintos de produção do conhecimento.
Antes, porém, de entrarmos nos conceitos desses termos, gostaria de fazer algumas considerações preliminares. Até pouco tempo vínhamos nos contentando, sem maiores questionamentos, com as abordagens detalhadas que os diferentes especialistas nos davam sobre os diferentes fenômenos naturais ou humanos, através das diferentes áreas de saber. Aliás, este ainda é um princípio que adotamos em muitas situações pragmáticas. Se tivermos, por exemplo, uma grave lesão no joelho, nossa tendência, caso tenhamos recursos, é a de procurar o melhor especialista existente ou disponível.
Para muitos de nós, não basta um excelente clínico médico (geral) ou mesmo um ótimo especialista que cuida indistintamente de todo tipo de lesão. Tendo condições, gostaríamos de ser assistidos pelo melhor especialista para aquele tipo específico de lesão, seja ela no ligamento cruzado, colateral, menisco, patela etc. Este simples exemplo nos mostra que, em certos aspectos, ainda adotamos, na prática, o paradigma da especialização.
Aos poucos, porém, este modelo vai se mostrando inadequado para as novas exigências e novas realidades que a dinâmica da vida, através de sua história, nos impõe. Não é sem sentido que muitos médicos, para continuarmos no exemplo da Medicina, estão abandonando suas posturas baseadas na especialização sem limites, e buscando formas alternativas de abordagem do ser humano, de sua saúde e de suas doenças. Alguns chegam ao extremo até de abandonar a própria profissão, em busca de novos horizontes profissionais e existenciais.
Embora não existe total uniformidade na conceituação dos termos disciplinaridade, multidisciplinaridade, interdisciplinaridade e transdisciplinaridade, vamos adotar aqui as noções mais prevalentes nos trabalhos realizados por aqueles que estudam estas questões relativas à produção do conhecimento e suas aplicações. Alguns desses nomes são Jean Piaget, Guy Berger, Georges Gusdorf, Erich Jantsch, Guy Palmade, Edgar Morin, Ilya Prigogine e, sobretudo, Basarab Nicolescu.
Disciplinaridade – é a abordagem que agrega o conhecimento especializado de uma disciplina ou ramo da ciência. Refere-se, portanto, a um conjunto específico de conhecimentos, com características e métodos próprios, sem relações aparentes com outras áreas de saber. Cada uma dessas áreas busca a compreensão dos fenômenos ou fatos através de sua leitura de mundo, própria, exclusiva e particular. Antes de desqualificarmos esta abordagem, é bom frisar novamente que foi dentro deste modelo que o conhecimento evoluiu em praticamente todas as áreas de saber durante o século 20. Em especial o conhecimento científico e tecnológico deve muito de sua evolução a este modelo paradigmático, ou seja, a especialização cada vez mais rigorosa e fechada. Este modelo, entretanto, como estamos tentando demonstrar, vem atingindo seu ponto de esgotamento, exigindo-se novas abordagens para a compreensão da realidade.
Multidisciplinaridade ou Pluridisciplinaridade – é a abordagem que faz a justaposição de duas ou mais disciplinas na busca de uma melhor compreensão dos fatos ou fenômenos. Esta aproximação entre as diferentes áreas, entretanto, mantém, em essência, a natureza própria da especificidade de cada uma delas. Isto significa que um assunto pode ser trabalhado em várias disciplinas, mas cada uma delas seguindo seus próprios métodos. Não há uma tentativa de síntese entre as diferentes áreas do conhecimento. Por isso que é muito comum, nas reuniões multidisciplinares, no esporte ou fora dele, a utilização de adágios tais como “Se cada um fizer bem a sua parte, tudo funcionará perfeitamente” ou ainda “Para um bom entendimento entre nós (especialistas em áreas específicas do saber) é preciso que cada um respeite a área do outro” e assim por diante. A multidisciplinaridade é uma primeira manifestação ou reação às limitações do conhecimento disciplinar super especializado (disciplinaridade), mas, como podemos concluir, esta é também uma abordagem que apresenta limitações no sentido de uma compreensão mais ampliada da realidade. E ainda muito utilizada pelas comissões técnicas no futebol que desejam realizar um trabalho em equipe.
Interdisciplinaridade – é a abordagem que busca a interação e a cooperação entre duas ou mais disciplinas. Diferentemente da multidisciplinaridade, existe aqui um fator de coesão entre saberes distintos. Contudo, na prática, às vezes se torna difícil saber se estamos adotando uma postura multidisciplinar ou interdisciplinar. Essas diferenças, em alguns casos, são tênues e sutis. A interação e cooperação entre duas ou mais disciplinas dependem fundamentalmente de atitudes subjetivas dos atores que participam do processo de construção do conhecimento.
Segundo G. Berger, elas podem variar desde a simples comunicação das ideias até a integração mútua dos conceitos diretores da epistemologia (2), da terminologia, da metodologia, dos procedimentos, dos dados e da organização de um conjunto de conhecimentos, da investigação ou do ensino correspondente.
Ainda no terreno prático, o que se observa é que, muitas vezes, um grupo interdisciplinar compõe-se de pessoas que receberam sua formação em diferentes domínios do conhecimento (disciplinas) com seus métodos, conceitos, dados e termos próprios, e, portanto, exige-se um esforço de todos para que possam exercer uma autêntica interdisciplinaridade.
Conforme nos ensina G. Gusdorf, os especialistas das diversas disciplinas devem estar animados de uma vontade comum e de uma boa vontade. Cada qual deve aceitar esforçar-se fora do seu domínio próprio e da sua própria linguagem técnica para aventurar-se num domínio de que não é proprietário exclusivo. A interdisciplinaridade pressupõe abertura de pensamento, curiosidade que se busca além de si mesmo. Este modo de conhecimento (interdisciplinar) é ainda raro nos meios futebolísticos.
Transdisciplinaridade – representa o estágio mais avançado entre os modos de produção do conhecimento. De forma semelhante à interdisciplinaridade, busca compreender o conhecimento como algo além do que é produzido pelas disciplinas, estas que, como sabemos, têm seus objetos, linguagens e métodos próprios. Mas ultrapassa o conceito de interdisciplinaridade na medida em que, além de exigir uma postura e uma atitude de total abertura e respeito à diversidade e a complexidade de todos os fenômenos, reconhece que não há referenciais – culturais, étnicos, científicos, religiosos – privilegiados para julgar como mais corretos ou verdadeiros determinado conjunto de conhecimentos, crenças ou valores.
Também diferentemente da interdisciplinaridade, que procura integrar as distintas linguagens características de cada área do saber, a transdisciplinaridade busca a construção de um único domínio linguístico, capaz de refletir a multidimensionalidade da realidade. Igualmente ao modo de produção do conhecimento interdisciplinar, a transdisciplinaridade exige a cooperação, a coordenação e a sinergia entre as disciplinas, mas fundamentalmente com o objetivo de transcendê-las.
É por isso que dizemos que a transdisciplinaridade aponta para um conhecimento que está ao mesmo tempo entre, através e além de todas as disciplinas. Ela significa o reconhecimento da interdependência de todos os aspectos da realidade. Seu objetivo é a tentativa de compreensão da realidade como um todo e não de fragmento dela, como se propõe cada disciplina. Busca, enfim, a unidade do conhecimento.
É considerado por alguns, como um movimento de reintegração da ciência, da arte e das tradições espirituais em busca de uma compreensão mais ampla da realidade ou do mundo em que vivemos. Para isso é preciso levar em conta todos os aspectos que envolvem esta nossa realidade e nossa existência, dentro de toda a sua complexidade. Levando-se em conta não só os aspectos estritamente objetivos, como também aqueles considerados subjetivos tais como: crenças, religiosidade, espiritualidade, cultura, costumes, tradições, valores, sentimentos, emoções, intuição etc.
Esta abordagem transdisciplinar muda radicalmente a tradicional postura científica que não admite subjetividades em seu espectro de análise da realidade. É, portanto, uma nova maneira de encararmos a realidade, dentro de um novo modelo paradigmático. É uma proposta de abordagem da realidade que, no nosso modo de ver, pode contribuir para mudanças radicais na forma pela qual o futebol é praticado, gestado, concebido e administrado.
 
 
“O conhecimento leva o homem a apropriar-se da realidade e, ao mesmo tempo a penetrar nela. Essa posse confere-nos a grande vantagem de nos tornar mais aptos para a ação consciente. A ignorância tolhe as possibilidades de avanço para melhor; mantém-nos prisioneiros das circunstâncias”.
(Eli Matos)
 
Concluindo
Gostaria de fechar este bloco de reflexões, colocando uma questão final para continuarmos pensando sobre o assunto: Se ainda temos enormes dificuldades em exercitar o modo de produção do conhecimento interdisciplinar (ainda tão distantes dos clubes e campos de futebol), o que não dizer da prática da transdisciplinaridade?
Tenho consciência que este é um tema árido e que não interessa muito a uma parcela considerável da comunidade que atua no futebol, principalmente àqueles autodenominados “pragmáticos”. Uma recente entrevista dada por um dos mais destacados treinadores brasileiros é sintomática daquilo que estamos falando. Preferimos não citar o nome do profissional, pois não se trata de uma questão pessoal, mas fundamentalmente conceitual.
Veja um trecho da entrevista:
Pergunta do Jornalista: Você tem Internet em casa, gosta de mexer no computador?
Resposta do Treinador: Tenho sim, mas não mexo. Aliás, detesto. E faço questão de ser assim. Eu pertenço a uma geração de práticos. Não sou teórico. Não sou internauta, não sou computadorizado, não sou vitaminado. Essa tal modernidade virou praga.
Tem preparador físico que virou catedrático, outros viraram deuses. E ainda tem o fisioterapeuta, o fisiologista. Aqui (no clube onde trabalha) não tem nada disso. Meu negócio é dentro do campo. Sou um tipo antigo. E faço questão de sê-lo.
O tema está aberto ao debate. Claro, para quem quiser participar dele. Há aqueles que parecem já ter descoberto todas as verdades que fundamentam suas práticas. Não há mais nada a aprender. Todo o espaço aberto ao aprendizado foi ocupado por certezas definitivas. Há também aqueles que se negam a refletir criticamente sobre seus atos e ações e, por conta desta atitude, deixam de tirar proveito dos ensinamentos advindos tanto da prática quanto da teoria. Para os que pensam assim, infelizmente, este artigo não serve para nada. Aos demais, convido-os ao diálogo.
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(1)Establishment“- O termo (The Establishment) é utilizado para designar pessoas de uma sociedade ou profissionais com influência e poder e que, geralmente, são resistentes às mudanças.
(2) Epistemologia – Teoria que estuda o conhecimento e a forma como ele é construído.
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